Publicado em Leitura

As dores e as delícias do ódio

O ódio sempre existiu e flui por todos os lados. Não é fácil existir e acumular fracassos, dores, solidão, questões sexuais, desafetos e uma sensação de que a vida é injusta conosco. O mais fácil é a transposição para terceiros. Um homem fracassa no seu projeto amoroso. O que é mais fácil? Culpar o feminismo ou a si? A resposta é fácil. Tenho certeza absoluta de que o autor do crime não era um leitor de Simone de Beauvoir ou Betty Friedan. Era um leitor de jargões, de frases feitas, de pensamento plástico e curto que se adaptava a sua dor.

Esses slogans são eficazes: “Toda feminista precisa de um macho”, “os gays estão dominando o mundo”, “sem-terra é tudo vagabundo”. Curtas, cheias de bílis, carregadas de dor, as frases entram no raso córtex cerebral do que tem medo e serve como muleta eficaz. No cérebro rarefeito a explicação surge como uma luz e dirige o ódio para fora. Se não houvesse feminismo, o assassino continuaria sendo o fracassado patético que sempre foi, mas agora ele sabe que seu fracasso nasceu das feministas e ele não tem culpa. Isto é o mais poderoso opiáceo já criado: o ódio.

[…]

Aqui começa a delícia do ódio. Ao vociferar contra outros, o ódio também me insere numa zona calma. Se berro que uma pessoa x é vagabunda porque nasceu na terra y, por oposição estou me elogiando, pois não nasci naquela terra nem sou vagabundo. Se ironizo com piadas ácidas uma orientação sexual, destaco no discurso oculto que a minha é superior. Todo ódio é um autoelogio. Todo ódio me traz para uma zona muito tranquila de conforto. Não tenho certeza se sou muito bom, mas sei que o outro partido é muito ruim, logo, ao menos, sou melhor do que eles. É um jogo moral denunciado por dois grandes judeus: Jesus e Freud.

Mas o ódio apresenta outra função interessante. Ela aplaina as diferenças do meu grupo. O ódio, como vários ditadores bem notaram, serve como ponto de união e de controle. O ódio é gêmeo do medo, e pessoas com medo cedem fácil sua liberdade de pensamento e ação.

[…]

O ódio é uma interrupção do pensamento e uma irracionalidade paralisadora. Como pensar é árduo, odiar é fácil. Se a religião é o ópio do povo para Marx, o ódio é o ópio da mente. Ele intoxica e impede todo e qualquer outro incômodo.

Por fim, o ódio tem um traço do nosso narciso infantil. O mundo deve concordar conosco. Quando não concorda, está errado. Somos catequistas porque somos infantis. A democracia é boa sempre que consagra meu candidato e minha visão do mundo. A democracia é ruim, deformada ou manipulada quando diz o contrário. Todo instituto de pesquisa é comprado quando revela algo diferente do meu desejo. Não se trata de pensar a realidade, mas adaptá-la ao meu eu. As crianças contemporâneas (especialmente as que têm mais de cinquenta anos como eu) batem o pé, fazem beicinho, mandam mensagem no WhatsApp e argumentam. Mas, como toda criança, não ouvimos ninguém. Ou melhor, ouvimos, desde que o outro concorde comigo; então ele é sábio e equilibrado. Selecionamos os fatos que desejamos não pelo nosso espírito crítico, mas por uma decisão prévia e apriorística que tomamos internamente.

Seria bom perceber que o ódio fala muito de mim e pouco do objeto que odeio. Mas o principal tema do ódio é meu medo da semelhança. Talvez por isso os ódios intestinos sejam mais virulentos do que os externos. Odeio não porque sinta a total diferença do objeto do meu desprezo, mas porque temo ser idêntico. Posso perdoar muita coisa, menos o espelho.

– Leandro Karnal, em “Todos Contra Todos”. Editora LeYa 2017.

Anúncios
Publicado em Leitura

Este é um fenômeno totalmente novo na história da humanidade: é importante aparecer em público. A importância de se exibir, até agora, era exclusiva de alguns assassinos em série, que queriam chamar a atenção dos jornais e da polícia. Agora, são as pessoas comuns que têm essa necessidade. É como compartilhar uma colonoscopia com o mundo.

UMBERTO ECO

Publicado em Leitura, Psicologia

Nise da Silveira <3

“Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais têm a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”

just_cat_more_space

“Eu me sinto bicho. Bicho é mais importante que gente. Pra mim o teste é o bicho, se não passar por ele, não tem vez. Freud disse que quem pensa que não é bicho, é arrogante.”

Publicado em Leitura, Psicologia

“Você vai trabalhar no SUAS”

O SUAS só pode ser um campo para os indignados: aqueles que esbravejam contra as desigualdades e injustiças que permeiam a vida dos nossos usuários, aqueles que esbravejam contra as dificuldades que permeiam a atuação dos trabalhadores do social. Podemos estar longe das transformações necessárias para a efetivação da política. Mas estamos no caminho.

De Lívia de Paula, em “Você Vai Trabalhar no SUAS”: Considerações sobre uma não-escolha.

Publicado em Leitura, Psicologia

Nada é verdadeiramente uma desgraça.

Nada é verdadeiramente uma desgraça. Tudo depende da atitude em relação ao fato. “Todos os fatos são externos”, disse Marco Aurélio, “quem se manifesta a respeito deles? Tu. Logo, é a tua opinião que lhes dá vida para teu bem ou para teu mal”.

Quem procura a felicidade a encontrará, desde que transforme o interesse do próximo no seu próprio. A felicidade e, portanto, a alegria de viver significam aceitar a realidade e utilizar as possibilidades do dia-a-dia.

Finalmente, a fórmula mais concisa contra os desgostos, que podem destruir o amor à vida, quem nos dá é a filosofia hindu: “Se tuas penas têm remédio, por que te preocupas? Se não têm, por que te preocupas?”.

.

– Porque o Homem Se Mata – Ensaio de Psicologia Criminal, Luíz Angelo Dourado, pg. 81

Livre de vírus. www.avast.com.
Publicado em amor, Leitura

Georgia Peaches and Other Forbidden Fruit

Author’s Note

GEORGIA_PEACHES_AND_OTHER_FORB_1463346684584696SK1463346684B

Faith is important to a lot of the world and for far too many queer youth, growing up with religion can be a painful experience. I wanted this novel to be something a young queer person of faith could hold on to as a bright spot while they navigate the waters of finding themselves. Maybe this story is too optimistic or maybe it’s exactly where we are in an exciting time of change, but as Althea says to Jo, didn’t God make you in his image? Aren’tyou worthy of that love?

You will know when you feel safe. (Your gut is a powerful self-protector!) You will know the right time to tell your faith community. You will know if you can’t. You may need a new faith community. You may leave religion altogether. But if a faith community is important to you, then you should be able to have it. And if you are an ally reading this book, stand up for your queer friends and don’t make room for hate in your belief systems.

As you walk away from this novel, there’s one thing I’d like you to take with you […], and that’s the knowledge that there are many people in the world who think you are perfect just the way you are.

Go out and find them.

– Jaye Robin Brown

Publicado em Leitura, Progresso!

027 – Ler 50 livros – não comics. Parte 3

Opa! Mais dez livros pra conta! Agora falta menos da metade. Até 2019 dou conta, hehe.

Vamos lá:

21 – 11.01.2017 – Pax – Sara Pennypecker (♥♥♥♥♥♥♥♥)

PAX_1464978188589315SK1464978188B Peter e sua raposa são inseparáveis desde que ele a resgatou, órfã, ainda filhote. Um dia, o inimaginável acontece: o pai do menino vai servir na guerra, e o obriga a devolver Pax à natureza. Ao chegar à distante casa do avô, onde passará a morar, Peter reconhece que não está onde deveria: seu verdadeiro lugar é ao lado de Pax. Movido por amor, lealdade e culpa, ele parte em uma jornada solitária de quase quinhentos quilômetros para reencontrar sua raposa, apesar da guerra que se aproxima. Enquanto isso, mesmo sem desistir de esperar por seu menino, Pax embarca em suas próprias aventuras e descobertas.
Um romance atemporal e para todas as idades, que aborda relações familiares, a relação do homem com o ambiente e os perigos que carregamos dentro de nós mesmos.

Minha opinião: Chorei! A última cena vai ficar comigo, certeza. A história é toda amorzinho, tipo Sessão da Tarde mesmo. Bom passatempo. 🙂

22 – 24.01.2017 A Sala dos Répteis (Desventuras em Série #2)Lemony Snicket (♥♥♥♥♥♥♥♥)

23 – 26.01.2017 – The Well Of Loneliness – Radclyffe Hall (♥♥♥♥♥♥)

24 – 09.02.2017 – O Lago das Sanguessugas (Desventuras em Série #3) – Lemony Snicket (♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

25 – 13.03.2017 Serraria Baixo-Astral (Desventuras em Série #4)Lemony Snicket (♥♥♥♥♥♥♥♥)

26 – 15.02.2017 – Menina Má – William March (♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

MENINA_MA_1458835413572351SK1458835413BPublicado originalmente em 1954, MENINA MÁ se transformou quase imediatamente em um estrondoso sucesso. Polêmico, violento, assustador eram alguns adjetivos comuns para descrever o último e mais conhecido romance de William March. Os críticos britânicos consideraram o livro apavorantemente bom. Ernest Hemingway se declarou um fã. Em menos de um ano, MENINA MÁ ganharia uma montagem nos palcos da Broadway e, em 1956, uma adaptação ao cinema indicada a quatro prêmios Oscar, incluindo o de melhor atriz para a menina Patty McComarck, que interpretou Rhoda Penmark.

Rhoda, a pequena malvada do título, é uma linda garotinha de 8 anos de idade. Mas quem vê a carinha de anjo, não suspeita do que ela é capaz. Seria ela a responsável pela morte de um coleguinha da escola? A indiferença da menina faz com que sua mãe, Christine, comece a investigar sobre crimes e psicopatas. Aos poucos, Christine consegue desvendar segredos terríveis sobre sua filha, e sobre o seu próprio passado também.

MENINA MÁ é um romance que influenciou não só a literatura como o cinema e a cultura pop. A crueldade escondida na inocência da pequena Rhoda Penmark serviria de inspiração para personagens clássicos do terror, como Damien, Chucky, Annabelle, Samara, de O Chamado, e o serial killer Dexter.

Minha opinião: Adorei que podemos acompanhar o ponto de vista da mãe, das desconfianças até a constatação do caráter da filha e as ferramentas que ela usa pra lidar com isso. É um foco diferente e empolgante. Rhoda, meiga, sorridente e com covinha, encanta a todos, mas tem uma das ganâncias mais severas que eu já vi.

O desenrolar da história sobre os anos iniciais de Christine também me chamou muito, mesmo que tenha sido usado como explicação para o comportamento atual de Rhoda (um tanto psicanalítico, como muitos outros pontos do livro – repressão de memórias e sonhos reveladores principalmente).

O filme é bem fiel ao livro, a atriz que faz Rhoda é apaixonante! O final foi alterado, por causa da política da época, então gostaria muito de vê-lo adaptado aos dias de hoje.
Já estou com saudades da Rhoda.

27 – 20.02.2017 – Inferno no Colégio Interno (Desventuras em Série #5) – Lemony Snicket (♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

28 – 01.03.2017 – O Elevador Ersartz (Desventuras em Série #6) – Lemony Snicket (♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

29 – 21.03.2017 Uni-Duni-TêM. J. Arlidge (♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

UNIDUNITE_1471551388606216SK1471551388BUm assassino está à solta. Sua mente doentia criou um jogo macabro no qual duas pessoas são submetidas a uma situação extrema: viver ou morrer. Só um deverá sobreviver. Um jovem casal acorda sem saber onde está. Amy e Sam foram dopados, capturados, presos e privados de água e comida. E não há como escapar. De repente, um celular toca com uma mensagem que diz que no chão há uma arma, carregada com uma única bala. Juntos, eles precisam decidir quem morre e quem sobrevive. Em poucos dias, outros pares de vítimas são sequestrados e confrontados com esta terrível escolha. À frente da investigação está a detetive Helen Grace, que, na tentativa de descobrir a identidade desse misterioso e cruel serial killer, é obrigada a encarar seus próprios demônios. Em uma trama violenta que traz à tona o pior da natureza humana, Grace percebe que a chave para resolver este enigma está nos sobreviventes. E ela precisa correr contra o tempo, antes que mais inocentes morram.

Minha opinião: Que boa surpresa! Encontrei esse livro por acaso e a sinopse me despertou interesse. Os primeiros capítulos me pegaram e fiquei presa até o final da leitura! Mistério na medida certa, adorei a narrativa, especialmente nos últimos momentos: o ritmo me manteve cativa.

Pontos adicionais por ter 90% da trama definida por mulheres. Muito bom, pra variar um pouco das histórias policiais atuais.

30 – 29.03.2017 – Redoma – Meg Wolitzer (♥♥♥♥♥♥♥♥♥)

Cheers, kiddos!