Publicado em Leitura, Psicologia, Vida em geral

Entre a caverna e o templo

O quarto do adolescente (ou seu canto) é sua caverna e seu templo. Mais que uma identidade definitiva, o quarto reflete seu estado de espírito, as crises de um cérebro em transformação. O adolescente transfere para aquele ambiente, que considera seu, o que se passa no próprio interior.

É uma caverna porque ele se esconde naquele lugar com tendência à escuridão e à bagunça, com restos de pizzas, sanduíches e latas de refrigerante misturados e livros e revistas. É também um templo porque lá pratica sua religião: recebe os amigos, ouve música. Um espaço nobre é reservado ao seu instrumento ou objeto predileto: a bateria, a guitarra, o aparelho de som, a televisão, o computador…

A caverna é onde ele libera seus instintos mais primitivos; o templo é um ambiente mais elaborado, mais sofisticado, onde ele sonha – é como se, na caverna, largasse o corpo e, no templo, cuidasse de sua vida.

Quando o adolescente se sente mal, o lado caverna fala mais alto. Se ele está deprimido, sentindo-se rejeitado, sozinho no mundo, e tendo a sensação de que suas atividades não rendem, a caverna vira uma bagunça e pode até invadir o espaço do templo para desorganizá-lo também. Reina, assim, a escuridão.

Ao sentir-se bem, ele se solta e caminha em direção à luz. A tendência é arrumar o quarto partindo do templo para a caverna, porque privilegia o primeiro: é mais fácil manter o templo em ordem do que a caverna. Esta é mais susceptível aos seus estados emocionais menos agradáveis, às suas oscilações de humor.

O adolescente nem sempre estica os lençóis, mas sempre afofa o travesseiro. Só quando se sente muito bem é que a caverna se torna clara, limpa, um lugar particularmente ordenado.

  • TIBA, I. Disciplina: Limite na medida certa. Ed. Ver. Atual. E ampl. – São Paulo: Integrare Editora, 2006.

Lendo esse trecho do livro do Içami Tiba não pude deixar de pensar na época em que meu quarto era, sim, meu templo e minha caverna. Meu mundo fora de mim. Quando minha vida era só escola e casa, era no meu quarto que eu passava a maior parte dos meus momentos – mesmo tendo o PC num quarto só pra ele. Ali eu lia, escrevia muito, via meus filmes, ouvia meu som, pensava muito na vida, me curtia, me dedicava a mim.

Hoje, sinto que já não tenho mais esse lugar só pra mim e sinto muito falta disso. Meu quarto quase não é mais só meu. Sempre dormem na minha cama, bagunçam e arrumam meus lençóis e limpam minha desorganização metódica. Não tenho mais tempo pra curtir meu cantinho.

Tudo que tenho ainda está dentro dele e a decoração é minha, mas não tenho mais tanto aquela sensação de pertencimento. Passo algumas noites por semana lá e só. Não curto mais o amanhecer na minha cama – quando durmo nela, já tenho que acordar no pulo -, não fico mais de preguiça. E acho que a “adultescencia” só se instalou em mim agora que percebi isso. E não gosto, não.

Quero meus 17 de volta.

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Autor:

Sou a Lee, 32 anos, psicóloga, criminóloga e professora de inglês. Noiva da Téia, casada com o Johnny Depp, mãe de três gatas e três cachorros. Moro numa caixa de sapatos à beira mar. Gosto de séries, livros e filmes, mas não tenho mais paciência/tempo como antes. Feminista e humanista, sempre estudante da Cognitivo-Comportamental. Gosto de cartas, postais (vamos trocar?), castelos, criminologia e felinos – não nessa ordem. Gamer pobre e – já mencionei? – sem tempo. Se não fosse tão preguiçosa seria perfeccionista. Sonho em um dia em falar tudo o que penso mas não penso muito nisso.

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