NINGUÉM É DE FERRO
A estrutura do ser humano é parecida com a dos metais, principalmente o ferro, que tem uma forma estável e para modificá-lo é preciso levá-lo a altas temperaturas. Nosso ser, depois de fabricado na infância, também é estável na vida adulta; para modificar-se, deve estar bem quente. As paixões ardentes funcionam como um alto-forno capaz de modificá-lo.
Há quem se DERRETA DE AMOR e, uma vez derretido, adquire a forma da pessoa que ama. Deixou sua identidade para assumir a outra. Mas esta mesma dissolução é perigosa quando o amado nos abandona, porque ficamos perdidos, sem referência e sem forma. Tornamo-nos estranhos a nós mesmos e é nesse sentido que o ciumento não só está preocupado em recuperar seu amado, mas também em reencontrar-se, perdeu o espelho onde se reconhecia.
Sem plataforma, mergulha no vazio como Narciso no lago. Quanto mais intensa a paixão, maior é a ameaça de perder-se [...]. “Outro a teu lado me reduz a nada” – ele só é em relação à mulher. Se ela se vai com outro, ele se perde. Neste homem se conserva muito próxima a relação entre SER E SER AMADO. Talvez não tenha podido elaborar adequadamente a dependência e uma insegurança infantil retorna, fazendo-lhe acreditar que vai desaparecer. Se somente podemos SER enquanto AMADOS, é evidente que não há outra possibilidade que não a de ser guardião do corpo de outro, o que funciona realmente como garantia para a própria existência.
É diferente passar por uma fase de ciúme como conseqüência de uma grande paixão, ou viver eternamente ciumento. O ciúme eterno não depende da fidelidade da pessoa amada, mas é a expressão da insegurança na primitiva construção do ser. Por essa razão, não haverá provas suficientes de fidelidade que tranqüilizem; sua causa não está no amado atual e, sim, nos primeiros amores, que, como sabemos, são muito mais difíceis de lidar, pois já
passaram.
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